As pinturas de Isabel Bomba executadas a óleo sobre tela de linho, levam-me a pensar que podiam ter sido doze pedaços arrancados a qualquer espaço galático, onde se devem produzir e reproduzir multidões de estruturas análogas.

Apresentam-se-nos como gestos de instantes mais ou menos prolongados, os quais são catalogados como paisagens, que não são fixas e a nossa posição em relação a estas está em constante mudança. São paisagens sem linhas de horizonte, que nos oferecem de modo singular a ilusão da luz sobre a luz e as suas múltiplas variações, lembrando faces de cristais talhadas, onde a sua raridade é dada pela cor e transparências únicas. Sugerem tectos em tromp-l'oeil variados, organizados com restos de grandes causas vividas profundamente, que o tempo teima em cicatrizar, para depois se erguerem em outras estruturas. Foram concebidas e executadas por curtas e breves delicadezas subtis, onde um sexto sentido conduziu a pintora para uma nova alternância das cores frias (escorridas) com as grandes e pequenas crateras de cores quentes.

Esta pintura está para além da limitação das paredes onde são expostas, rompe os muros permitindo-nos imaginar o possível - o outro lado da pintura. Os espaços brancos propõem-nos que avancemos sobre eles e procuremos outros e outros espaços e assim sucessivamente até ao infinito. Como os espaços nem sempre são mensuráveis, seria interessante ver esta pintura aplicada em certos suportes da arquitectura, particularmente em cúpulas de algumas
igrejas. Seria um modo de contribuir para as chamadas fontes de prolongamento das pessoas para além das barreiras arquitectónicas, como aliás já se faz com a música. Assim os bispos e os arquitectos o entendam.

Constança Vasconcelos