Neste poema de José Fanha, a pedra torna-se um símbolo de transformação e renascimento. O autor explora, de forma profunda e sensível, o processo criativo que envolve a moldagem da matéria bruta, onde cada gesto revela uma busca incessante por formas e significados. Através da pedra, Fanha exprime a sua necessidade de tocar a perfeição e de dar forma a um mundo interior, tecendo palavras, sentidos e afetos que desbravam novas geometrias de criação.
Pego no disforme de uma pedra e vou
em busca de outra forma
de outro quente
de outra manta.
Pego nas arestas de uma pedra
e sonho catedrais.
Arrisco a perfeição de uma coluna
onde o meu rosto
possa receber a luz
da primeirissima manhã.
Pego na bruteza de uma pedra
e sei que todo o meu trabalho é renascer
tecer palavas e sentidos
e cuidar da pedra
desbravar a pedra
numa outra geometria
de fios e segredos e afectos.
José Fanha